terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Capítulo 3 – O Jovem de Assis

Apenas dois meses depois da comédia escrachada que apresentamos – “O Fruto Proibido” – fui procurado por dois estudantes do seminário que funcionava no subsolo do Lar São Vicente, em Tambaú. Eles gostaram da apresentação do grupo e nos convidaram para um trabalho conjunto: a montagem de um texto onde seria contada a vida de Giovanni di Pietro di Bernardone ou São Francisco de Assis.

Jaeme César Lacerda, pelo que me consta autor do texto “O Jovem de Assis” (apesar de que na cópia que tenho – mimeografada – aparecer o nome de Raimundo “Ray” Nonato, que deve ter digitado o roteiro), também dirigiria a peça. Carlos Virgílio Saggio, o outro seminarista, atuaria conosco.

Um adendo: Mimeógrafo era um aparelho utilizado nas escolas para se reproduzir cópias de um texto (quase um xerox). O que seria multiplicado era datilografado, nas máquinas de escrever obviamente, em um estêncil, que era uma folha parecida com carbono. Esse papel especial era colocado no aparelho abastecido com álcool e, conforme girava-se a manivela, as cópias iam saindo, todas com um cheiro peculiar que hoje remete aos tempos de colégio.

Um adendo do adendo: alguns alunos mais espertos invadiam a sala dos professores para pegar, no lixo, as cópias das provas escolares que ficavam gravadas no estêncil descartado e assim pesquisar as respostas.

Mas voltando ao assunto deste capítulo: ao elenco da peça anterior foram agregados novos atores e eu fui escolhido para ser Francisco, o que me trouxe uma alegria imensa, sobretudo ao declamar a indefectível oração final – que penso ser uma das mais belas da história do catolicismo. Também foi o papel onde me despi pela primeira – e acho que única vez – no teatro.

Aliás, a cena onde Francisco joga suas vestes aos pés do pai é uma das que mais tenho nas lembranças de palco até hoje.

A apresentação, a exemplo das anteriores, também aconteceu no palco do Salão Nobre da Escola Padre Donizetti e, como já havia comentado no capítulo anterior, foi muito aplaudida pela imensa maioria católica que formava a cidade naquela época.

A história de São Francisco, o jovem de Assis, é mesmo repleta de poesia, beleza e aquela dose dramática suficiente para arrancar lágrimas. Uma música clássica ao fundo – repare na reprodução do texto que há a marcação de “Jesus, Alegria dos Homens”, de Bach – e pronto: o espectador está entregue à sua apresentação.

Sucesso absoluto – agora sim, já éramos reconhecidos como “aqueles doidos que faziam teatro” – e com um grupo unido e sempre recebendo novos talentos, apenas um mês depois estávamos em outra empreitada, desta vez escrita e dirigida pelo Carlos Saggio – ainda hoje meu grande amigo - que atualmente é padre, cantor, compositor e pároco no distrito de Milagres, no Estado de Minas Gerais. 


Ficha Técnica - “O Jovem de Assis”

Direção: Jaeme Cesar Lacerda.

Elenco: Paulo Rogério, Aguinaldo Costa, Carlos Henrique, Evelyn Steter, Pedro Gaspar, Regina Célia, Teresa Cristina e Carlos Ságio.

Estreia: Novembro de 1983 – Salão Nobre da Escola Padre Donizetti Tavares de Lima – Tambaú.

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