O ano de 1985 foi de muitas mudanças sob vários aspectos. Mudança para um
garoto recém-saído do colégio e da cidadezinha do interior, que iria fazer
faculdade de Publicidade. E mudança para o país que deixaria para trás – pero no mucho – os famigerados
anos escuros da ditadura militar.
Em janeiro tivemos um presidente eleito – mesmo
que de forma indireta – que era civil. E em abril ele morreu, fazendo com que
nossa esperança, como cantou Milton, virasse um sorvete em pleno sol.
Eu, inquieto, repleto de sonhos e pó de nuvem nos sapatos,
não me conformava com o destino tragicômico do nosso Brasil. Fomos as ruas,
brigamos, fomos derrotados, vencemos e o destino de uma nação, como se costurado por greias impiedosas, colocava quase tudo a perder de novo.
E o que era preciso fazer? Chorar a nova república derramada
ou focar na letra do hino que ecoava no primeiro Rock in Rio, fazendo com que a
gente não parasse mais de sonhar?
Foi assim, peguei o que havia sido vivido pelo país como uma
tragédia grega, coloquei uma pitada de comédia, muita farsa e o saboroso título
de “Viva a República”, o primeiro espetáculo do Grupo Curtura de Teatro dentro
da programação da SEUNIT – Semana Universitária Tambauense.
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| O cartaz da peça. |
Como um parênteses obrigatório, vale dizer que a SEUNIT foi
a primeira do gênero no país. Nasceu em Tambaú em 1963 para trazer à pequena
comunidade o que estava acontecendo cultural e socialmente pelas grandes cidades,
onde estudavam os universitários que a criaram. Esse ano ela completa sua 60ª edição.
E assim fomos convidados para encenar na SAT - Sociedade
Amigos de Tambaú, o Clube mais tradicional da cidade, inaugurado em 1944 e
palco dos maiores shows, espetáculos, acontecimentos sociais e políticos. E a casa da Semana Universitária.
Em tempo: pesquisando meus arquivos para essa série de artigos
comemorativos, encontrei o registro de que em abril de 1985, três meses antes
da estreia na SAT, encenamos uma peça na Igreja do Meio – chamada assim porque
fica exatamente no meio do caminho entre a Matriz e o Santuário de Nossa Senhora
Aparecida. Pela documentação, essa peça se chamou “O Veredicto” e pelo que
vagamente me recordo, tratava-se do julgamento de Jesus Cristo como se fosse em
um tribunal nos dias de hoje.
Mas o fato que o espetáculo deste ano - ao lado de uma montagem infantil que vamos ler no próximo capítulo - foi “Viva a República”.
Na sinopse, dois universitários se disfarçavam de mulher e de criança para morarem em um prédio proibido para estudantes. A peça era uma metáfora dos
acontecimentos confusos que envolveram a morte do então Presidente da
República, Tancredo Neves.
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A programação da Seunit daquele ano. |
Eu interpretava um dos universitários e também seu disfarce Dolores
Não-me-Toque e meu grande amigo Jaime da Silva – que conheci dois anos antes no
curso de contabilidade e até hoje trabalha com a Associação Cultural Quintal
das Artes (produtora do Grupo Curtura a partir de 2005) – era quem fazia a
criança, “filho” de Dolores.
Os nomes dos personagens secundários eram amálgamas dos
políticos que desfilavam pelos corredores da Brasília daquele ano conturbado. A garota de quem meu personagem gostava na peça era a Faroleta, homenagem óbvia a dona Risoleta, viúva do presidente.
A Flávia Regina, intérprete desta personagem é quem aparece
na foto aqui, com o figurino da peça, no único registro que temos desta comédia
escrachada e que se tornou o primeiro grande sucesso do Grupo Curtura no meio
universitário e para o público da cidade e região.
A gente tinha dado um passo
a mais com a participação na SEUNIT, parceria, aliás, que viria a se repetir
muitas vezes.
Uma curiosidade final sobre essa peça: Com a grande
repercussão e pedidos para que fosse reapresentada (naquela época encenávamos
apenas uma noite), planejamos voltar em cartaz no final do ano. Decidimos que a
renda seria toda doada para uma entidade da cidade. Pedimos a uma gráfica que
confeccionasse os ingressos e entregamos os talões para o presidente da tal
entidade, que iria vendê-los. A peça aconteceria em dezembro. Tudo preparado e
voltamos à SAT para divertir mais uma vez o nosso público.
Marcada para as 20 horas, os minutos foram passando e nada
de aparecer ninguém. Quem é do palco em algum momento deve ter conhecido essa sensação. A
peça foi cancelada. Ficamos sabendo no dia seguinte que o presidente da
entidade tinha guardado os talões de ingressos em uma gaveta e os esquecido ali.
Foi a única e última vez – graças a Deus e aos deuses do teatro – nesses 40
anos, que um espetáculo meu não teve público.
Ficha Técnica de “Viva a República”
Direção e Dramaturgia: Paulo Rogério Rocco.
Elenco: Paulo Rogério, Jaime da Silva, Flávia Regina, Pedro
Gaspar, Érica Bassanezi, Claudiléia Penazzo, Donizetti Zampolo, Tatiana
Bolognesi Campi, Evelyn Steter e Thais Martinelli.
Estreia: Julho de 1985 – Sociedade Amigos de Tambaú.