domingo, 4 de junho de 2023

Capítulo 10 – Édipo Rei

Após o sucesso de “Páginas Passadas” resolvi que o Grupo Curtura merecia algo muito especial na comemoração dos seus cinco anos de atividades. E a SEUNIT – Semana Universitária Tambauense – chegava à sua 25ª edição, da qual eu era o Presidente. Então comecei a pensar em um texto para essa montagem em comemorações tão significativas. Queria algo clássico e que representasse um novo patamar para os integrantes da companhia.

Elenco de Édipo Rei. 

Em maio daquele ano de 1988, a Globo terminava de exibir “Mandala”, novela de Dias Gomes inspirada justamente naquela que é considerada por muitos como a peça mais perfeita de todos os tempos: “Édipo Rei”, de Sófocles. E foi justamente o texto que escolhi para nossa nova aventura nos palcos.

Ensaio da peça. 

Claro que o grupo topou de cara e com a estreia de vários novos integrantes, partimos para a missão que, mais que um novo espetáculo, representaria o início de uma nova trajetória. A equipe técnica recebeu reforços pela primeira vez que, por toda nossa história, seria a base criativa do Grupo Curtura de Teatro, da Escola de Teatro e da Associação Cultural Quintal das Artes.

O Coro na peça. 

Começamos os trabalhos. Para viver o protagonista a escolha óbvia seria o João Aguiar – que acabara de arrasar em “Páginas Passadas” e sua parceira em cena – que por um bom tempo seria também sua parceira na vida “aqui fora” – Paulinha Furini, ganhou o icônico papel de Jocasta.

Os coadjuvantes principais foram Beto Mello como Creonte, Paulo Barbin – que também foi o criador do cartaz da peça – como Tirésias, Cláudio Vinicius fazendo o Pastor e Adilson Valezin interpretando o Mensageiro. Novos e queridos amigos e amigas compuseram o Coro, verdadeiro personagem central de qualquer obra do teatro grego.

Paula Furini
como Jocasta.
Tanto os ensaios como a estreia ocorreram na Sociedade Amigos de Tambaú. Os cenários eram simples para contar a história do rei que assassinava o próprio pai e se casava com a própria mãe. O destaque, no entanto, ficou para os objetos de cena que foram elaborados e construídos por meu pai Mauri, o melhor cenotécnico que conheci. Em outros capítulos citarei algumas de suas criações que tornaram possíveis meus delírios cênicos, mas em “Édipo Rei” ele já mostrava sua genialidade de sempre, agora nos palcos.

Frame da gravação
da peça. 

A mesa mortuária de Jocasta foi toda feita por ele em madeira. O corpo era carregado pelo coro e depois colocado em quatro pedestais que o sustentavam para a cena final da tragédia, entre castiçais também de madeira. Mas o toque de midas foi um broche que a rainha carregava em seu vestido e que Édipo usava para furar os próprios olhos. Confeccionado em latão, a pequena peça trazia em seu interior um tubinho de colírio com o “sangue” que iria escorrer pelos olhos do soberano de Tebas. Um efeito à princípio simples que deu um resultado impressionante na cena.

A Esfinge do cartaz. 

Outra estreia importantíssima nesse espetáculo foi de José Eli Costa como figurinista. Ele começou ali a desenhar tudo o que o elenco do Curtura, da Escola de Teatro e da Quintal das Artes já usou em cena – e não parou até hoje. Esse meu amigo se tornou – a partir de “Édipo Rei” – parte fundamental para minhas criações no palco e na minha vida. Vencedor de vários e vários prêmios nessa categoria, construiu uma trajetória também como Ator, que será contada em cenas dos próximos capítulos.

No cartaz de programação da Seunit também consta outra peça no dia seguinte em que apresentamos: “Os 4 Heróis”, com o Grupo Experimental Arutruc. A “brincadeira” era um espetáculo infantil baseado em “Os Saltimbancos” com parte do elenco do Grupo Curtura – e o infame nome com as letras de trás para frente. Mas não vingou, não houve tempo para os ensaios, confirmando-se essa “peça” como um dos indefectíveis “furos” em programações da Semana Universitária.

Mas “Édipo Rei” aconteceu e fez história. Não preciso escrever aqui o tamanho do sucesso que esse espetáculo atingiu. Levávamos para uma cidade pequena, que começava a respirar os ares do teatro, uma das mais importantes peças teatrais da história da humanidade. E isso não era pouca coisa.

 

Ficha Técnica de “Édipo Rei”

Direção: Paulo Rogério Rocco

Elenco: João Aguiar, Ana Paula Furini, Beto Mello, Paulo César Barbin, Tatiana Campi, Alecsandra Sobreira de Lima, Cláudio Vinicius, Adilson Valezin, Renaldo Mázaro Júnior, Glauco Rosa, Sara Regina Marrafon, Sandra Regina Marrafon e Cláudia Aparecida de Oliveira. 

Técnica: Carlos Henrique, Reginaldo Ferreira da Silva e Clayton Rezende.

Objetos Cênicos: Mauri Rocco

Figurinos: José Eli Costa

Estreia: Julho de 1988 – Sociedade Amigos de Tambaú.


quarta-feira, 17 de maio de 2023

Capítulo 9 - Páginas Passadas

Mais um ano de intervalo entre as montagens significava que o trabalho do Grupo Curtura estava ficando “sério”, com textos mais elaborados e o início do aprofundamento de estudos de técnicas teatrais. Eu já sabia o que queria fazer da vida profissional, mesmo que estivesse cursando a faculdade de Publicidade e Propaganda. E era Teatro.

João Edson 
Mais uma Semana Universitária Tambauense – a 24ª edição – e lá estávamos nós com nossa quarta montagem sendo apresentada no importante evento cultural. Eu tinha acabado de escrever um texto – meu primeiro drama – sobre um escritor que sofria de uma doença incurável e queria deixar para o mundo uma obra literária com as “respostas” para todos os problemas da vida. A personagem principal, Jean Fellipe, foi inspirada no físico Stephen Hawking.

Texto de
"Páginas Passadas". 
Jean começa sua história na peça “Páginas Passadas” em setembro de 1939, quando explode a segunda Guerra Mundial e passa por diversos eventos dramáticos – do mundo e de sua família – para questionar e procurar as “soluções” que iria deixar para a humanidade. 

Ali eu percebi o quanto era mais “fácil” do ponto de vista dramatúrgico, emocionar e fazer o público chorar do que diverti-lo com comédia. E foi quando também ganhei um importante toque da minha querida professora de redação da faculdade, Sandra Maria Campos, ao terminar de ler meu texto: “Sempre coloque, nem que for um pouco, de humor em suas dramaturgias. O equilíbrio é importante”.

Esse espetáculo foi inclusive apresentado no Teatro Bassano Vaccarini, na Universidade de Ribeirão Preto, naquele mesmo ano. Foi a primeira vez que o Curtura saiu em viagem.

Cartaz impresso 
em silk screen.
O protagonista foi interpretado por João Aguiar e muitos atores e atrizes estrearam no Curtura naquela montagem, inclusive meu irmão mais novo, o André. Um dos que começaram ali também foi Rogério Cunha, que interpretava um Espírito que visitava Jean, sendo sua consciência e guia nos momentos cruciais de sua história. Rogério – que logo depois se formou em odontologia e é meu dentista até hoje – atuava na frente de uma luz estroboscopica, montada pelo meu pai, que produzia efeitos fantasmagóricos em cena, com a ajuda da máquina de fumaça.  

Pela primeira vez também tínhamos um equipamento de iluminação melhor à nossa disposição, precário, mas acima dos refletores – ou holofotes para ser mais claro – que vínhamos utilizando até então. Tínhamos também operadores de luz para isso e operador de som para a belíssima trilha sonora que se iniciava com “She” de Charles Aznavour, ilustrando a origem francesa de Jean Fellipe.

“Páginas Passadas” também foi nosso primeiro espetáculo filmado. O registro em fita VHS foi realizado pelo meu tio Sebastião Menegatto, o Menega, um dos primeiros apaixonados por câmeras e filmagens que conheci. A foto de João Aguiar que ilustra esse capítulo foi extraída dessa filmagem. Não temos outros registros desta montagem.

Muitas pessoas que acompanharam nossa trajetória ainda se lembram com carinho desse espetáculo que teve interpretações memoráveis e marcou um próximo passo no caminho do Curtura.

Passo que viria a ser ultrapassado já no ano seguinte pela ousada montagem de uma das peças teatrais mais importantes da história da humanidade. 


Ficha Técnica de “Páginas Passadas” 

Elenco: João Aguiar, Wilson Rogério da Cunha, Adilson Valezin, Andréa Ferrari, Ana Paula Furini Alves, Beto Mello, Tatiana Campi, Luciana Bernini Menegatto, Silvio “Cachoeira”, André Luis Bolognesi Rocco, Cláudio Vinicius e Érica Carrara.

Maquiagem: Renata Generoso Corrêa e Lucieni Maria Cabral Santana.

Sonoplastia: Carlos Henrique.

Iluminação: Clayton José Figueiredo Rezende.

Assistente de Direção: Jaime da Silva.

Estreia: Julho de 1987 – Sociedade Amigos de Tambaú.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Capítulo 8 - A Operação Centenário

Após o sucesso das montagens anteriores apresentada na Semana Universitária Tambauense, era mais que esperado que a próxima edição do tradicional evento convidasse mais uma vez o Grupo Curtura para ser o representante da cidade na programação cultural. E após um ano – até então o mais longo tempo entre um espetáculo e outro que produzimos – iríamos estrear a nova peça.

O texto escolhido foi uma sátira ao principal acontecimento social e político local de 1986: o centenário de fundação da cidade de Tambaú.

Em “A Operação Centenário” o perigoso bandido chamado de “Tião Babini” – uma junção de nomes de dois amigos, o Sebastião Guilherme (que dividia apartamento comigo em Campinas) e o Roberto Babini (colega da faculdade de Publicidade na PUC) – era responsável por tocar o terror na pequena comunidade do interior.

No texto, o vilão mandava roubar uma tal Carta do Centenário – que seria lida no dia da comemoração – e os quadros das cinco pessoas mais influentes da cidade: prefeito, delegado, juiz, vigário e presidente da câmara. A intricada trama repleta de humor, claro, divertiu o público sobretudo pela imediata identificação das personagens com figuras reais da cidade.

A comédia, com elementos de farsa e inspirada nos livros policiais e de mistério, trazia personagens como James Pierrô – um amálgama de James Bond e Hercule Poirot - para combater o misterioso bandido que nem apareceu em cena, saindo vencedor ao final da história.

Na primeira das fotos – no palco da Sociedade Amigos de Tambaú – frente a um cenário extremamente simples e improvisado, estou eu – o cúmplice de Tião Babini já rendido, o Jaime da Silva como o detetive e João Aguiar como seu assistente.

Na imagem do confessionário, como o padre prestes a ser atacado está o Adriani Bueno e o cara de chapéu é um punk assassino, interpretado por Beto Mello. Beto partiu cedo, aos 37 anos em 2005, mas ainda representaria grandes papéis na nossa história.  

Depois dessa comédia divertida que brincava com a própria cidade onde nasceu, o Grupo Curtura montaria uma série de espetáculos que iam do drama para a tragédia, passando por aquele que talvez seja o maior dramaturgo de todos os tempos. Comédia declarada mesmo só voltaríamos a montar em 2003.

 

Ficha Técnica de “A Operação Centenário”. 

Direção: Paulo Rogério Rocco

Elenco: Paulo Rogério, Jaime da Silva, João Aguiar, Andréa Gatto Ferrari, Silvio Glauco Rezende Rosa, Cláudio Vinicius, Adriani Bueno, Roberto Meira de Carvalho Mello, Tatiana Campi, Raquel Pedroso e Andréa Pedroso.

Técnica: Carlos Henrique Rocco. 

Estreia: Julho de 1986 – Sociedade Amigos de Tambaú.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Capítulo 7 – Pluft, o Fantasminha

Quando falei no capítulo anterior que 1985 tinha sido especial para nosso ainda recém-formado grupo, não exagerei. A estreia na Semana Universitária Tambauense veio em dobro, com o sucesso “Viva a República” (assunto do capítulo anterior) e a nossa primeira montagem para o público infantil: “Pluft, O Fantasminha”, a clássica obra de Maria Clara Machado.

O elenco quase que se repetia nas duas produções, o que demonstrava nossa vontade enorme de fazer acontecer. O presidente do Clube Universitário – então promotor da Seunit – naquele ano era Jefferson Rossi Prado. E foi justamente o Jefão que deu a chance para o teatro iniciante de Tambaú fazer parte daquele evento. E fizemos história.

“Pluft” dispensa sinopse. Que não viveu em Marte desde 1955, sabe de cor a história do fantasminha que morre de medo de gente e se aventura contra os piratas para salvar sua amiga Maribel. O papel-título ficou para meu irmão Carlos Henrique, que estreou em Semana Universitária antes da gente, em uma montagem de “Judas em Sábado de Aleluia”, do extinto grupo TAT – Teatro Amador Tambauense.

Maribel foi docemente vivida por Flávia Regina; Silvana Furtado fez a mãe de Pluft com seus adoráveis pasteis de vento e este que aqui, humildemente escreve, interpretou um dos papeis mais legais do teatro infantil brasileiro: o temido Capitão Perna-de-Pau. Jaime da Silva, meu parceiro de cena em “Viva e República”, deu vida (!) ao Tio Gerúndio, dentro do seu indefectível baú.

E para completar a aventura que divertiu centenas e centenas de crianças na Sociedade Amigos de Tambaú, os três marinheiros amigos de Maribel foram interpretados por Cláudio Rezende, Donizetti Zampolo e João Edson Aguiar; que viveria em um próximo capítulo, um dos textos mais lembrados pelo nosso público nesse início de caminhada.

Como eu estava dirigindo o espetáculo adulto, ganhamos uma Diretora talentosa para comandar a montagem de “Pluft”: minha amiga Rosângela Cunha, que também já tinha feito parte do Grupo TAT. E na foto do ensaio, publicada nesse texto, ainda aparece o José Ruy Amâncio (de capacete), que foi uma espécie de “consultor” da montagem. Zé Ruy já havia sido o Pluft em uma montagem feita na cidade, ao lado do Jefão, que tinha vivido (!) o tio do Pluft.

Depois dessa nossa aventura pelo teatro imortal de uma das maiores dramaturgas brasileiras, “Pluft, o Fantasminha” seria montado outras duas vezes pela Escola Municipal de Teatro de Tambaú, que eu também viria a dirigir. Mais isso é assunto para alguns capítulos adiante.

 

Ficha Técnica de “Pluft, o Fantasminha”. 

Direção: Rosângela Amélia Cunha

Elenco: Paulo Rogério, Carlos Henrique, Flávia Regina, Jaime da Silva, Silvana Furtado, Cláudio Vinicius Figueiredo Rezende, Donizetti Zampolo e João Edson Aguiar.

Estreia: Julho de 1985 – Sociedade Amigos de Tambaú.

sábado, 18 de março de 2023

Capítulo 6 - Viva a República

O ano de 1985 foi de muitas mudanças sob vários aspectos. Mudança para um garoto recém-saído do colégio e da cidadezinha do interior, que iria fazer faculdade de Publicidade. E mudança para o país que deixaria para trás – pero no mucho – os famigerados anos escuros da ditadura militar. 

Em janeiro tivemos um presidente eleito – mesmo que de forma indireta – que era civil. E em abril ele morreu, fazendo com que nossa esperança, como cantou Milton, virasse um sorvete em pleno sol.

Eu, inquieto, repleto de sonhos e pó de nuvem nos sapatos, não me conformava com o destino tragicômico do nosso Brasil. Fomos as ruas, brigamos, fomos derrotados, vencemos e o destino de uma nação, como se costurado por greias impiedosas, colocava quase tudo a perder de novo.

E o que era preciso fazer? Chorar a nova república derramada ou focar na letra do hino que ecoava no primeiro Rock in Rio, fazendo com que a gente não parasse mais de sonhar?

Foi assim, peguei o que havia sido vivido pelo país como uma tragédia grega, coloquei uma pitada de comédia, muita farsa e o saboroso título de “Viva a República”, o primeiro espetáculo do Grupo Curtura de Teatro dentro da programação da SEUNIT – Semana Universitária Tambauense.  

O cartaz da peça.
Como um parênteses obrigatório, vale dizer que a SEUNIT foi a primeira do gênero no país. Nasceu em Tambaú em 1963 para trazer à pequena comunidade o que estava acontecendo cultural e socialmente pelas grandes cidades, onde estudavam os universitários que a criaram. Esse ano ela completa sua 60ª edição. 

E assim fomos convidados para encenar na SAT - Sociedade Amigos de Tambaú, o Clube mais tradicional da cidade, inaugurado em 1944 e palco dos maiores shows, espetáculos, acontecimentos sociais e políticos. E a casa da Semana Universitária.

Em tempo: pesquisando meus arquivos para essa série de artigos comemorativos, encontrei o registro de que em abril de 1985, três meses antes da estreia na SAT, encenamos uma peça na Igreja do Meio – chamada assim porque fica exatamente no meio do caminho entre a Matriz e o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Pela documentação, essa peça se chamou “O Veredicto” e pelo que vagamente me recordo, tratava-se do julgamento de Jesus Cristo como se fosse em um tribunal nos dias de hoje.

Mas o fato que o espetáculo deste ano - ao lado de uma montagem infantil que vamos ler no próximo capítulo - foi “Viva a República”. Na sinopse, dois universitários se disfarçavam de mulher e de criança para morarem em um prédio proibido para estudantes. A peça era uma metáfora dos acontecimentos confusos que envolveram a morte do então Presidente da República, Tancredo Neves.    

A programação da Seunit
daquele ano. 
Eu interpretava um dos universitários e também seu disfarce Dolores Não-me-Toque e meu grande amigo Jaime da Silva – que conheci dois anos antes no curso de contabilidade e até hoje trabalha com a Associação Cultural Quintal das Artes (produtora do Grupo Curtura a partir de 2005) – era quem fazia a criança, “filho” de Dolores.

Os nomes dos personagens secundários eram amálgamas dos políticos que desfilavam pelos corredores da Brasília daquele ano conturbado. A garota de quem meu personagem gostava na peça era a Faroleta, homenagem óbvia a dona Risoleta, viúva do presidente.

A Flávia Regina, intérprete desta personagem é quem aparece na foto aqui, com o figurino da peça, no único registro que temos desta comédia escrachada e que se tornou o primeiro grande sucesso do Grupo Curtura no meio universitário e para o público da cidade e região. 

A gente tinha dado um passo a mais com a participação na SEUNIT, parceria, aliás, que viria a se repetir muitas vezes.

Uma curiosidade final sobre essa peça: Com a grande repercussão e pedidos para que fosse reapresentada (naquela época encenávamos apenas uma noite), planejamos voltar em cartaz no final do ano. Decidimos que a renda seria toda doada para uma entidade da cidade. Pedimos a uma gráfica que confeccionasse os ingressos e entregamos os talões para o presidente da tal entidade, que iria vendê-los. A peça aconteceria em dezembro. Tudo preparado e voltamos à SAT para divertir mais uma vez o nosso público.

Marcada para as 20 horas, os minutos foram passando e nada de aparecer ninguém. Quem é do palco em algum momento deve ter conhecido essa sensação. A peça foi cancelada. Ficamos sabendo no dia seguinte que o presidente da entidade tinha guardado os talões de ingressos em uma gaveta e os esquecido ali. Foi a única e última vez – graças a Deus e aos deuses do teatro – nesses 40 anos, que um espetáculo meu não teve público.

 

Ficha Técnica de “Viva a República”

Direção e Dramaturgia: Paulo Rogério Rocco.

Elenco: Paulo Rogério, Jaime da Silva, Flávia Regina, Pedro Gaspar, Érica Bassanezi, Claudiléia Penazzo, Donizetti Zampolo, Tatiana Bolognesi Campi, Evelyn Steter e Thais Martinelli. 

Estreia: Julho de 1985 – Sociedade Amigos de Tambaú.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Capítulo 5 – O Espetáculo Não Pode Parar

De volta à escola. Na verdade ainda não tínhamos saído dela. Em 1984 foi meu último ano de colégio. E para comemorar o primeiro aniversário do Grupo Curtura, voltamos ao local onde iniciamos nossa jornada com outro espetáculo sobre o Dia das Mães, à convite da diretoria.

Apresentação no pátio
do colégio.
Com o premonitório título “O Espetáculo Não Pode Parar” lotamos o pátio do Colégio Estadual Padre Donizetti para contar a história de Aline, uma garota cega que sonhava em ser bailarina.

Uma das minhas melhores amigas até hoje, Flávia Regina – brilhante advogada - estreou nos palcos dando vida à protagonista, uma menina doce que sofria os mais variados preconceitos e a descrença de familiares a amigos em sua arte.

Nosso elenco nessa
peça. 
O primeiro da esquerda na foto com o elenco é meu irmão, Carlos Henrique, que ajudou nos bastidores e ao lado dele o Paulo, um seminarista colega do Carlos Saggio, diretor do espetáculo anterior. No centro o João Reginaldo, do qual não tive mais notícia e com a bengala esse que aqui digita. As meninas, da esquerda para a direita: Flávia, Teresa e Célia. 

Gosto muito do texto até hoje e vejo nele elementos dramáticos que iria trazer para minha dramaturgia anos depois. Uma trilha sonora que vinha com algumas lágrimas discretas e pronto: todo mundo emocionado e o Grupo Curtura conquistando de vez o coração dos amigos da escola, dos professores e da plateia em geral, após um ano e cinco montagens em sua ainda breve existência.

O cartaz foi feito à mão - somente um - que foi colocado no mural da escola. O desenho, se não estou enganado, foi feito por uma colega de classe, a Ângela Neves. 

Como disse no capítulo anterior, foi a última vez que nos apresentamos na escola que viu nossa origem. Em 1985 outro passo seria dado. Eu entrava para a faculdade e o Curtura começava uma trajetória um pouco mais séria do ponto de vista artístico.

 

Ficha Técnica de “O Espetáculo Não Pode Parar”

Direção e Dramaturgia: Paulo Rogério Rocco.

Elenco: Paulo Rogério, Flávia Regina Ribeiro da Silva, João Reginaldo, Paulo Seminarista, Regina Célia da Silva e Teresa Cristina Santana.

Estreia: Maio de 1984 – Escola Padre Donizetti Tavares de Lima – Tambaú.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Capítulo 4 – Não Mate o Lírio do Campo

Esse espetáculo foi montado em apenas um mês, com praticamente o mesmo elenco da peça anterior e algumas estreias. Carlos Saggio, hoje Padre Carlos, após o sucesso de “O Jovem de Assis”, propôs a montagem de um texto seu: “Não Mate o Lírio do Campo”.

A história era sobre um jovem ambicioso, no interior do Estado de São Paulo, que destruía a própria família para atingir seus objetivos. E, claro, as consequências disso tudo.

Aguinaldo, Célia e Teresa

O tempo recorde de ensaios não impediu do espetáculo se tornar um sucesso de público e marcar um passo importante para nosso grupo criado dentro de uma escola: pela primeira vez apresentaríamos em um palco fora dali, na sede social de um dos clubes de futebol da cidade.

E assim, em dezembro de 1983, ainda no ano de criação do Grupo Curtura, “Não Mate o Lírio do Campo” era apresentado para um grande público no palco do Esporte Clube Operário. 

No cenário apenas uma mesa, uma cadeira e uma pintura na cortina de fundo. Mas aquilo para a gente era como se fosse o Municipal de uma grande cidade. E um detalhe: foi nosso primeiro espetáculo com registro fotográfico, como pode observar aqui. 

Aguinaldo, Célia e Paulo Rogério

Aqueles atores e atrizes amadores, começando seus primeiros passos em uma área até então desconhecida, viveriam mais uma vez a glória dos aplausos e os cumprimentos emocionados ao final da apresentação.

Carlos Saggio também dirigiu a peça. Em alguns documentos da época diz que fui colaborador no texto, mas acho que isso foi mais uma demonstração da gentileza desse meu amigo do que um fato da minha história como dramaturgo. Ele veio com a ideia e o texto prontos e nosso Grupo Curtura se encarregou dar vida àqueles personagens.

Foi nossa primeira peça a ter um cartaz de divulgação. Impresso em tipografia - sistema de impressão em que as frases eram montadas letra por letra - ele tinha dois patrocínios de duas empresas que não mais existem, mas entendiam perfeitamente a importância de se investir em cultura. 

Essa imagem ao lado traz um desenho feito à lápis em um canto do cartaz. Eu fiz isso somente neste cartaz, que ficou colado para divulgação na Auto Peças da nossa família, pertencente ao meu avô Paulo, que veio a falecer no mês seguinte. 

A próxima montagem iria nos levar de volta ao pátio da escola onde começamos. Pela última vez.

 

Ficha Técnica de “Não Mate o Lírio do Campo”

Direção e Dramaturgia: Carlos Virgílio Saggio.

Elenco: Paulo Rogério Rocco, Aguinaldo Costa, João Reginaldo, Pedro Gaspar, Regina Célia da Silva, Teresa Cristina Santana, Marco Aurélio Salotti e Sônia Vizotto.

Estreia: Dezembro de 1983 – Sede do E. C. Operário - Tambaú.