O ano de 1985 foi de muitas mudanças sob vários aspectos. Mudança para um garoto recém-saído do colégio e da cidadezinha do interior, que iria fazer faculdade de Publicidade. E mudança para o país que deixaria para trás – pero no mucho – os famigerados anos escuros da ditadura militar.
Em janeiro tivemos um presidente eleito – mesmo que de forma indireta – que era civil. E em abril ele morreu, fazendo com que nossa esperança, como cantou Milton, virasse um sorvete em pleno sol.
Eu, inquieto, repleto de sonhos e pó de nuvem nos sapatos,
não me conformava com o destino tragicômico do nosso Brasil. Fomos as ruas,
brigamos, fomos derrotados, vencemos e o destino de uma nação, como se costurado por greias impiedosas, colocava quase tudo a perder de novo.
E o que era preciso fazer? Chorar a nova república derramada
ou focar na letra do hino que ecoava no primeiro Rock in Rio, fazendo com que a
gente não parasse mais de sonhar?
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| O cartaz da peça. |
E assim fomos convidados para encenar na SAT - Sociedade
Amigos de Tambaú, o Clube mais tradicional da cidade, inaugurado em 1944 e
palco dos maiores shows, espetáculos, acontecimentos sociais e políticos. E a casa da Semana Universitária.
Mas o fato que o espetáculo deste ano - ao lado de uma montagem infantil que vamos ler no próximo capítulo - foi “Viva a República”.
Na sinopse, dois universitários se disfarçavam de mulher e de criança para morarem em um prédio proibido para estudantes. A peça era uma metáfora dos
acontecimentos confusos que envolveram a morte do então Presidente da
República, Tancredo Neves.
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| A programação da Seunit daquele ano. |
Os nomes dos personagens secundários eram amálgamas dos políticos que desfilavam pelos corredores da Brasília daquele ano conturbado. A garota de quem meu personagem gostava na peça era a Faroleta, homenagem óbvia a dona Risoleta, viúva do presidente.
Marcada para as 20 horas, os minutos foram passando e nada
de aparecer ninguém. Quem é do palco em algum momento deve ter conhecido essa sensação. A
peça foi cancelada. Ficamos sabendo no dia seguinte que o presidente da
entidade tinha guardado os talões de ingressos em uma gaveta e os esquecido ali.
Foi a única e última vez – graças a Deus e aos deuses do teatro – nesses 40
anos, que um espetáculo meu não teve público.
Ficha Técnica de “Viva a República”
Direção e Dramaturgia: Paulo Rogério Rocco.
Elenco: Paulo Rogério, Jaime da Silva, Flávia Regina, Pedro
Gaspar, Érica Bassanezi, Claudiléia Penazzo, Donizetti Zampolo, Tatiana
Bolognesi Campi, Evelyn Steter e Thais Martinelli.
Estreia: Julho de 1985 – Sociedade Amigos de Tambaú.



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