sábado, 18 de março de 2023

Capítulo 6 - Viva a República

O ano de 1985 foi de muitas mudanças sob vários aspectos. Mudança para um garoto recém-saído do colégio e da cidadezinha do interior, que iria fazer faculdade de Publicidade. E mudança para o país que deixaria para trás – pero no mucho – os famigerados anos escuros da ditadura militar. 

Em janeiro tivemos um presidente eleito – mesmo que de forma indireta – que era civil. E em abril ele morreu, fazendo com que nossa esperança, como cantou Milton, virasse um sorvete em pleno sol.

Eu, inquieto, repleto de sonhos e pó de nuvem nos sapatos, não me conformava com o destino tragicômico do nosso Brasil. Fomos as ruas, brigamos, fomos derrotados, vencemos e o destino de uma nação, como se costurado por greias impiedosas, colocava quase tudo a perder de novo.

E o que era preciso fazer? Chorar a nova república derramada ou focar na letra do hino que ecoava no primeiro Rock in Rio, fazendo com que a gente não parasse mais de sonhar?

Foi assim, peguei o que havia sido vivido pelo país como uma tragédia grega, coloquei uma pitada de comédia, muita farsa e o saboroso título de “Viva a República”, o primeiro espetáculo do Grupo Curtura de Teatro dentro da programação da SEUNIT – Semana Universitária Tambauense.  

O cartaz da peça.
Como um parênteses obrigatório, vale dizer que a SEUNIT foi a primeira do gênero no país. Nasceu em Tambaú em 1963 para trazer à pequena comunidade o que estava acontecendo cultural e socialmente pelas grandes cidades, onde estudavam os universitários que a criaram. Esse ano ela completa sua 60ª edição. 

E assim fomos convidados para encenar na SAT - Sociedade Amigos de Tambaú, o Clube mais tradicional da cidade, inaugurado em 1944 e palco dos maiores shows, espetáculos, acontecimentos sociais e políticos. E a casa da Semana Universitária.

Em tempo: pesquisando meus arquivos para essa série de artigos comemorativos, encontrei o registro de que em abril de 1985, três meses antes da estreia na SAT, encenamos uma peça na Igreja do Meio – chamada assim porque fica exatamente no meio do caminho entre a Matriz e o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Pela documentação, essa peça se chamou “O Veredicto” e pelo que vagamente me recordo, tratava-se do julgamento de Jesus Cristo como se fosse em um tribunal nos dias de hoje.

Mas o fato que o espetáculo deste ano - ao lado de uma montagem infantil que vamos ler no próximo capítulo - foi “Viva a República”. Na sinopse, dois universitários se disfarçavam de mulher e de criança para morarem em um prédio proibido para estudantes. A peça era uma metáfora dos acontecimentos confusos que envolveram a morte do então Presidente da República, Tancredo Neves.    

A programação da Seunit
daquele ano. 
Eu interpretava um dos universitários e também seu disfarce Dolores Não-me-Toque e meu grande amigo Jaime da Silva – que conheci dois anos antes no curso de contabilidade e até hoje trabalha com a Associação Cultural Quintal das Artes (produtora do Grupo Curtura a partir de 2005) – era quem fazia a criança, “filho” de Dolores.

Os nomes dos personagens secundários eram amálgamas dos políticos que desfilavam pelos corredores da Brasília daquele ano conturbado. A garota de quem meu personagem gostava na peça era a Faroleta, homenagem óbvia a dona Risoleta, viúva do presidente.

A Flávia Regina, intérprete desta personagem é quem aparece na foto aqui, com o figurino da peça, no único registro que temos desta comédia escrachada e que se tornou o primeiro grande sucesso do Grupo Curtura no meio universitário e para o público da cidade e região. 

A gente tinha dado um passo a mais com a participação na SEUNIT, parceria, aliás, que viria a se repetir muitas vezes.

Uma curiosidade final sobre essa peça: Com a grande repercussão e pedidos para que fosse reapresentada (naquela época encenávamos apenas uma noite), planejamos voltar em cartaz no final do ano. Decidimos que a renda seria toda doada para uma entidade da cidade. Pedimos a uma gráfica que confeccionasse os ingressos e entregamos os talões para o presidente da tal entidade, que iria vendê-los. A peça aconteceria em dezembro. Tudo preparado e voltamos à SAT para divertir mais uma vez o nosso público.

Marcada para as 20 horas, os minutos foram passando e nada de aparecer ninguém. Quem é do palco em algum momento deve ter conhecido essa sensação. A peça foi cancelada. Ficamos sabendo no dia seguinte que o presidente da entidade tinha guardado os talões de ingressos em uma gaveta e os esquecido ali. Foi a única e última vez – graças a Deus e aos deuses do teatro – nesses 40 anos, que um espetáculo meu não teve público.

 

Ficha Técnica de “Viva a República”

Direção e Dramaturgia: Paulo Rogério Rocco.

Elenco: Paulo Rogério, Jaime da Silva, Flávia Regina, Pedro Gaspar, Érica Bassanezi, Claudiléia Penazzo, Donizetti Zampolo, Tatiana Bolognesi Campi, Evelyn Steter e Thais Martinelli. 

Estreia: Julho de 1985 – Sociedade Amigos de Tambaú.

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