O segundo espetáculo do Grupo Curtura de Teatro também não
deixou registros audiovisuais, o que é uma pena, já que me recordo claramente
dos figurinos escalafobéticos – pra usar uma palavra bem em moda na época – que
utilizamos para os personagens dessa comédia maluca que só queria fazer o
público rir.
Mas antes de chegar ao assunto do capítulo, propriamente
dito, quero citar um grande espetáculo que não fizemos em nossa história. Há
alguns anos, o professor Dirceu Barbin – já citado no prólogo – entregou-me uma
página que ele guardou por muito tempo, mais precisamente por cerca de 40 anos.
Trata-se de um trabalho da aula de Educação Artística onde deveríamos – penso eu
– montar uma sinopse, um elenco e uma ficha técnica do que viria a ser uma peça teatral, ensinando-nos ali o processo inicial de uma produção.
A página que reproduzo aqui traz justamente esses detalhes
do que poderia ter vindo a ser uma montagem: “Zero Vírgula contra a Ameaça dos Androides”.
Obviamente “Blade Runner” havia acabado de estrear nos cinemas e fã que fui,
desde o primeiro momento, tratei de colocar logo os tais homens-máquinas em um
texto.
O quadro técnico traz toda nossa equipe, amigas e amigos tão queridos
até hoje, meu irmão Carlos Henrique ali no meio e a Teresa Cristina – hoje conceituada
Juíza de Direito – que aparece como possível coautora do texto (que nunca viria
a ser escrito). A sinopse mistura claramente Sherlock Holmes, James Bond e
os temíveis vilões do filme de Ridley Scott.
Para fechar o assunto, o papel datilografado traz a
assinatura do mestre Dirceu Barbin, de setembro de 1983, aprovando o nosso
trabalho sobre a montagem que jamais chegaria aos palcos, mas que serviu para
unir o Grupo na próxima empreitada.
Assim, no mesmo mês deste trabalho teórico, chegaria ao
palco do Salão Nobre da Escola Padre Donizetti, em Tambaú, a peça “O Fruto
Proibido”, cuja primeira página pode ser vista em reprodução.
A sinopse dizia que um fruto alterava a personalidade de todas as pessoas de uma família em férias. E
o texto nada mais era do que uma sucessão de piadas sobre esse povo
passando as férias em uma cabana isolada que tinha a tal planta em
um vaso no meio da sala, com instruções claras que não deveria ser comido.
Assim sendo, desde os primórdios da humanidade segundo a
Bíblia, o que é proibido é a primeira coisa a atrair o ser humano. Os personagens comiam o fruto e tinham desde a índole alterada bruscamente até o
simples “sair do armário” e revelar suas preferências, escancarando a natureza de cada um.
Nada demais, mas naquele ano que antecedeu os últimos meses da famigerada
ditadura militar, claro que recebemos algumas críticas por mostrar uma família
em cena que não era tão perfeita de acordo com os preceitos ditados pela matéria “educação
moral e cívica”, que fazia parte da grade curricular.
E claro, também, que não demos a mínima moral para esse
povo chato e continuamos a nos divertir em cena, sem imaginar que essas mesmas
pessoas que riram muito do nosso “Fruto Proibido” antes de criticá-lo, viriam
nos aplaudir efusivamente no próximo espetáculo.
Ficha Técnica - O Fruto Proibido
Texto e Direção: Paulo Rogério Rocco.
Elenco: Paulo Rogério Rocco, Carlos Henrique Rocco, Teresa
Cristina Cabral Santana, Regina Célia da Silva, Alexandre Dutra, Adauto Ricardo Sobreira de Lima e João Reginaldo Leme.
Estreia: Setembro de 1983 – Salão Nobre da Escola Padre Donizetti Tavares de Lima – Tambaú.