domingo, 4 de junho de 2023

Capítulo 10 – Édipo Rei

Após o sucesso de “Páginas Passadas” resolvi que o Grupo Curtura merecia algo muito especial na comemoração dos seus cinco anos de atividades. E a SEUNIT – Semana Universitária Tambauense – chegava à sua 25ª edição, da qual eu era o Presidente. Então comecei a pensar em um texto para essa montagem em comemorações tão significativas. Queria algo clássico e que representasse um novo patamar para os integrantes da companhia.

Elenco de Édipo Rei. 

Em maio daquele ano de 1988, a Globo terminava de exibir “Mandala”, novela de Dias Gomes inspirada justamente naquela que é considerada por muitos como a peça mais perfeita de todos os tempos: “Édipo Rei”, de Sófocles. E foi justamente o texto que escolhi para nossa nova aventura nos palcos.

Ensaio da peça. 

Claro que o grupo topou de cara e com a estreia de vários novos integrantes, partimos para a missão que, mais que um novo espetáculo, representaria o início de uma nova trajetória. A equipe técnica recebeu reforços pela primeira vez que, por toda nossa história, seria a base criativa do Grupo Curtura de Teatro, da Escola de Teatro e da Associação Cultural Quintal das Artes.

O Coro na peça. 

Começamos os trabalhos. Para viver o protagonista a escolha óbvia seria o João Aguiar – que acabara de arrasar em “Páginas Passadas” e sua parceira em cena – que por um bom tempo seria também sua parceira na vida “aqui fora” – Paulinha Furini, ganhou o icônico papel de Jocasta.

Os coadjuvantes principais foram Beto Mello como Creonte, Paulo Barbin – que também foi o criador do cartaz da peça – como Tirésias, Cláudio Vinicius fazendo o Pastor e Adilson Valezin interpretando o Mensageiro. Novos e queridos amigos e amigas compuseram o Coro, verdadeiro personagem central de qualquer obra do teatro grego.

Paula Furini
como Jocasta.
Tanto os ensaios como a estreia ocorreram na Sociedade Amigos de Tambaú. Os cenários eram simples para contar a história do rei que assassinava o próprio pai e se casava com a própria mãe. O destaque, no entanto, ficou para os objetos de cena que foram elaborados e construídos por meu pai Mauri, o melhor cenotécnico que conheci. Em outros capítulos citarei algumas de suas criações que tornaram possíveis meus delírios cênicos, mas em “Édipo Rei” ele já mostrava sua genialidade de sempre, agora nos palcos.

Frame da gravação
da peça. 

A mesa mortuária de Jocasta foi toda feita por ele em madeira. O corpo era carregado pelo coro e depois colocado em quatro pedestais que o sustentavam para a cena final da tragédia, entre castiçais também de madeira. Mas o toque de midas foi um broche que a rainha carregava em seu vestido e que Édipo usava para furar os próprios olhos. Confeccionado em latão, a pequena peça trazia em seu interior um tubinho de colírio com o “sangue” que iria escorrer pelos olhos do soberano de Tebas. Um efeito à princípio simples que deu um resultado impressionante na cena.

A Esfinge do cartaz. 

Outra estreia importantíssima nesse espetáculo foi de José Eli Costa como figurinista. Ele começou ali a desenhar tudo o que o elenco do Curtura, da Escola de Teatro e da Quintal das Artes já usou em cena – e não parou até hoje. Esse meu amigo se tornou – a partir de “Édipo Rei” – parte fundamental para minhas criações no palco e na minha vida. Vencedor de vários e vários prêmios nessa categoria, construiu uma trajetória também como Ator, que será contada em cenas dos próximos capítulos.

No cartaz de programação da Seunit também consta outra peça no dia seguinte em que apresentamos: “Os 4 Heróis”, com o Grupo Experimental Arutruc. A “brincadeira” era um espetáculo infantil baseado em “Os Saltimbancos” com parte do elenco do Grupo Curtura – e o infame nome com as letras de trás para frente. Mas não vingou, não houve tempo para os ensaios, confirmando-se essa “peça” como um dos indefectíveis “furos” em programações da Semana Universitária.

Mas “Édipo Rei” aconteceu e fez história. Não preciso escrever aqui o tamanho do sucesso que esse espetáculo atingiu. Levávamos para uma cidade pequena, que começava a respirar os ares do teatro, uma das mais importantes peças teatrais da história da humanidade. E isso não era pouca coisa.

 

Ficha Técnica de “Édipo Rei”

Direção: Paulo Rogério Rocco

Elenco: João Aguiar, Ana Paula Furini, Beto Mello, Paulo César Barbin, Tatiana Campi, Alecsandra Sobreira de Lima, Cláudio Vinicius, Adilson Valezin, Renaldo Mázaro Júnior, Glauco Rosa, Sara Regina Marrafon, Sandra Regina Marrafon e Cláudia Aparecida de Oliveira. 

Técnica: Carlos Henrique, Reginaldo Ferreira da Silva e Clayton Rezende.

Objetos Cênicos: Mauri Rocco

Figurinos: José Eli Costa

Estreia: Julho de 1988 – Sociedade Amigos de Tambaú.


quarta-feira, 17 de maio de 2023

Capítulo 9 - Páginas Passadas

Mais um ano de intervalo entre as montagens significava que o trabalho do Grupo Curtura estava ficando “sério”, com textos mais elaborados e o início do aprofundamento de estudos de técnicas teatrais. Eu já sabia o que queria fazer da vida profissional, mesmo que estivesse cursando a faculdade de Publicidade e Propaganda. E era Teatro.

João Edson 
Mais uma Semana Universitária Tambauense – a 24ª edição – e lá estávamos nós com nossa quarta montagem sendo apresentada no importante evento cultural. Eu tinha acabado de escrever um texto – meu primeiro drama – sobre um escritor que sofria de uma doença incurável e queria deixar para o mundo uma obra literária com as “respostas” para todos os problemas da vida. A personagem principal, Jean Fellipe, foi inspirada no físico Stephen Hawking.

Texto de
"Páginas Passadas". 
Jean começa sua história na peça “Páginas Passadas” em setembro de 1939, quando explode a segunda Guerra Mundial e passa por diversos eventos dramáticos – do mundo e de sua família – para questionar e procurar as “soluções” que iria deixar para a humanidade. 

Ali eu percebi o quanto era mais “fácil” do ponto de vista dramatúrgico, emocionar e fazer o público chorar do que diverti-lo com comédia. E foi quando também ganhei um importante toque da minha querida professora de redação da faculdade, Sandra Maria Campos, ao terminar de ler meu texto: “Sempre coloque, nem que for um pouco, de humor em suas dramaturgias. O equilíbrio é importante”.

Esse espetáculo foi inclusive apresentado no Teatro Bassano Vaccarini, na Universidade de Ribeirão Preto, naquele mesmo ano. Foi a primeira vez que o Curtura saiu em viagem.

Cartaz impresso 
em silk screen.
O protagonista foi interpretado por João Aguiar e muitos atores e atrizes estrearam no Curtura naquela montagem, inclusive meu irmão mais novo, o André. Um dos que começaram ali também foi Rogério Cunha, que interpretava um Espírito que visitava Jean, sendo sua consciência e guia nos momentos cruciais de sua história. Rogério – que logo depois se formou em odontologia e é meu dentista até hoje – atuava na frente de uma luz estroboscopica, montada pelo meu pai, que produzia efeitos fantasmagóricos em cena, com a ajuda da máquina de fumaça.  

Pela primeira vez também tínhamos um equipamento de iluminação melhor à nossa disposição, precário, mas acima dos refletores – ou holofotes para ser mais claro – que vínhamos utilizando até então. Tínhamos também operadores de luz para isso e operador de som para a belíssima trilha sonora que se iniciava com “She” de Charles Aznavour, ilustrando a origem francesa de Jean Fellipe.

“Páginas Passadas” também foi nosso primeiro espetáculo filmado. O registro em fita VHS foi realizado pelo meu tio Sebastião Menegatto, o Menega, um dos primeiros apaixonados por câmeras e filmagens que conheci. A foto de João Aguiar que ilustra esse capítulo foi extraída dessa filmagem. Não temos outros registros desta montagem.

Muitas pessoas que acompanharam nossa trajetória ainda se lembram com carinho desse espetáculo que teve interpretações memoráveis e marcou um próximo passo no caminho do Curtura.

Passo que viria a ser ultrapassado já no ano seguinte pela ousada montagem de uma das peças teatrais mais importantes da história da humanidade. 


Ficha Técnica de “Páginas Passadas” 

Elenco: João Aguiar, Wilson Rogério da Cunha, Adilson Valezin, Andréa Ferrari, Ana Paula Furini Alves, Beto Mello, Tatiana Campi, Luciana Bernini Menegatto, Silvio “Cachoeira”, André Luis Bolognesi Rocco, Cláudio Vinicius e Érica Carrara.

Maquiagem: Renata Generoso Corrêa e Lucieni Maria Cabral Santana.

Sonoplastia: Carlos Henrique.

Iluminação: Clayton José Figueiredo Rezende.

Assistente de Direção: Jaime da Silva.

Estreia: Julho de 1987 – Sociedade Amigos de Tambaú.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Capítulo 8 - A Operação Centenário

Após o sucesso das montagens anteriores apresentada na Semana Universitária Tambauense, era mais que esperado que a próxima edição do tradicional evento convidasse mais uma vez o Grupo Curtura para ser o representante da cidade na programação cultural. E após um ano – até então o mais longo tempo entre um espetáculo e outro que produzimos – iríamos estrear a nova peça.

O texto escolhido foi uma sátira ao principal acontecimento social e político local de 1986: o centenário de fundação da cidade de Tambaú.

Em “A Operação Centenário” o perigoso bandido chamado de “Tião Babini” – uma junção de nomes de dois amigos, o Sebastião Guilherme (que dividia apartamento comigo em Campinas) e o Roberto Babini (colega da faculdade de Publicidade na PUC) – era responsável por tocar o terror na pequena comunidade do interior.

No texto, o vilão mandava roubar uma tal Carta do Centenário – que seria lida no dia da comemoração – e os quadros das cinco pessoas mais influentes da cidade: prefeito, delegado, juiz, vigário e presidente da câmara. A intricada trama repleta de humor, claro, divertiu o público sobretudo pela imediata identificação das personagens com figuras reais da cidade.

A comédia, com elementos de farsa e inspirada nos livros policiais e de mistério, trazia personagens como James Pierrô – um amálgama de James Bond e Hercule Poirot - para combater o misterioso bandido que nem apareceu em cena, saindo vencedor ao final da história.

Na primeira das fotos – no palco da Sociedade Amigos de Tambaú – frente a um cenário extremamente simples e improvisado, estou eu – o cúmplice de Tião Babini já rendido, o Jaime da Silva como o detetive e João Aguiar como seu assistente.

Na imagem do confessionário, como o padre prestes a ser atacado está o Adriani Bueno e o cara de chapéu é um punk assassino, interpretado por Beto Mello. Beto partiu cedo, aos 37 anos em 2005, mas ainda representaria grandes papéis na nossa história.  

Depois dessa comédia divertida que brincava com a própria cidade onde nasceu, o Grupo Curtura montaria uma série de espetáculos que iam do drama para a tragédia, passando por aquele que talvez seja o maior dramaturgo de todos os tempos. Comédia declarada mesmo só voltaríamos a montar em 2003.

 

Ficha Técnica de “A Operação Centenário”. 

Direção: Paulo Rogério Rocco

Elenco: Paulo Rogério, Jaime da Silva, João Aguiar, Andréa Gatto Ferrari, Silvio Glauco Rezende Rosa, Cláudio Vinicius, Adriani Bueno, Roberto Meira de Carvalho Mello, Tatiana Campi, Raquel Pedroso e Andréa Pedroso.

Técnica: Carlos Henrique Rocco. 

Estreia: Julho de 1986 – Sociedade Amigos de Tambaú.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Capítulo 7 – Pluft, o Fantasminha

Quando falei no capítulo anterior que 1985 tinha sido especial para nosso ainda recém-formado grupo, não exagerei. A estreia na Semana Universitária Tambauense veio em dobro, com o sucesso “Viva a República” (assunto do capítulo anterior) e a nossa primeira montagem para o público infantil: “Pluft, O Fantasminha”, a clássica obra de Maria Clara Machado.

O elenco quase que se repetia nas duas produções, o que demonstrava nossa vontade enorme de fazer acontecer. O presidente do Clube Universitário – então promotor da Seunit – naquele ano era Jefferson Rossi Prado. E foi justamente o Jefão que deu a chance para o teatro iniciante de Tambaú fazer parte daquele evento. E fizemos história.

“Pluft” dispensa sinopse. Que não viveu em Marte desde 1955, sabe de cor a história do fantasminha que morre de medo de gente e se aventura contra os piratas para salvar sua amiga Maribel. O papel-título ficou para meu irmão Carlos Henrique, que estreou em Semana Universitária antes da gente, em uma montagem de “Judas em Sábado de Aleluia”, do extinto grupo TAT – Teatro Amador Tambauense.

Maribel foi docemente vivida por Flávia Regina; Silvana Furtado fez a mãe de Pluft com seus adoráveis pasteis de vento e este que aqui, humildemente escreve, interpretou um dos papeis mais legais do teatro infantil brasileiro: o temido Capitão Perna-de-Pau. Jaime da Silva, meu parceiro de cena em “Viva e República”, deu vida (!) ao Tio Gerúndio, dentro do seu indefectível baú.

E para completar a aventura que divertiu centenas e centenas de crianças na Sociedade Amigos de Tambaú, os três marinheiros amigos de Maribel foram interpretados por Cláudio Rezende, Donizetti Zampolo e João Edson Aguiar; que viveria em um próximo capítulo, um dos textos mais lembrados pelo nosso público nesse início de caminhada.

Como eu estava dirigindo o espetáculo adulto, ganhamos uma Diretora talentosa para comandar a montagem de “Pluft”: minha amiga Rosângela Cunha, que também já tinha feito parte do Grupo TAT. E na foto do ensaio, publicada nesse texto, ainda aparece o José Ruy Amâncio (de capacete), que foi uma espécie de “consultor” da montagem. Zé Ruy já havia sido o Pluft em uma montagem feita na cidade, ao lado do Jefão, que tinha vivido (!) o tio do Pluft.

Depois dessa nossa aventura pelo teatro imortal de uma das maiores dramaturgas brasileiras, “Pluft, o Fantasminha” seria montado outras duas vezes pela Escola Municipal de Teatro de Tambaú, que eu também viria a dirigir. Mais isso é assunto para alguns capítulos adiante.

 

Ficha Técnica de “Pluft, o Fantasminha”. 

Direção: Rosângela Amélia Cunha

Elenco: Paulo Rogério, Carlos Henrique, Flávia Regina, Jaime da Silva, Silvana Furtado, Cláudio Vinicius Figueiredo Rezende, Donizetti Zampolo e João Edson Aguiar.

Estreia: Julho de 1985 – Sociedade Amigos de Tambaú.

sábado, 18 de março de 2023

Capítulo 6 - Viva a República

O ano de 1985 foi de muitas mudanças sob vários aspectos. Mudança para um garoto recém-saído do colégio e da cidadezinha do interior, que iria fazer faculdade de Publicidade. E mudança para o país que deixaria para trás – pero no mucho – os famigerados anos escuros da ditadura militar. 

Em janeiro tivemos um presidente eleito – mesmo que de forma indireta – que era civil. E em abril ele morreu, fazendo com que nossa esperança, como cantou Milton, virasse um sorvete em pleno sol.

Eu, inquieto, repleto de sonhos e pó de nuvem nos sapatos, não me conformava com o destino tragicômico do nosso Brasil. Fomos as ruas, brigamos, fomos derrotados, vencemos e o destino de uma nação, como se costurado por greias impiedosas, colocava quase tudo a perder de novo.

E o que era preciso fazer? Chorar a nova república derramada ou focar na letra do hino que ecoava no primeiro Rock in Rio, fazendo com que a gente não parasse mais de sonhar?

Foi assim, peguei o que havia sido vivido pelo país como uma tragédia grega, coloquei uma pitada de comédia, muita farsa e o saboroso título de “Viva a República”, o primeiro espetáculo do Grupo Curtura de Teatro dentro da programação da SEUNIT – Semana Universitária Tambauense.  

O cartaz da peça.
Como um parênteses obrigatório, vale dizer que a SEUNIT foi a primeira do gênero no país. Nasceu em Tambaú em 1963 para trazer à pequena comunidade o que estava acontecendo cultural e socialmente pelas grandes cidades, onde estudavam os universitários que a criaram. Esse ano ela completa sua 60ª edição. 

E assim fomos convidados para encenar na SAT - Sociedade Amigos de Tambaú, o Clube mais tradicional da cidade, inaugurado em 1944 e palco dos maiores shows, espetáculos, acontecimentos sociais e políticos. E a casa da Semana Universitária.

Em tempo: pesquisando meus arquivos para essa série de artigos comemorativos, encontrei o registro de que em abril de 1985, três meses antes da estreia na SAT, encenamos uma peça na Igreja do Meio – chamada assim porque fica exatamente no meio do caminho entre a Matriz e o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Pela documentação, essa peça se chamou “O Veredicto” e pelo que vagamente me recordo, tratava-se do julgamento de Jesus Cristo como se fosse em um tribunal nos dias de hoje.

Mas o fato que o espetáculo deste ano - ao lado de uma montagem infantil que vamos ler no próximo capítulo - foi “Viva a República”. Na sinopse, dois universitários se disfarçavam de mulher e de criança para morarem em um prédio proibido para estudantes. A peça era uma metáfora dos acontecimentos confusos que envolveram a morte do então Presidente da República, Tancredo Neves.    

A programação da Seunit
daquele ano. 
Eu interpretava um dos universitários e também seu disfarce Dolores Não-me-Toque e meu grande amigo Jaime da Silva – que conheci dois anos antes no curso de contabilidade e até hoje trabalha com a Associação Cultural Quintal das Artes (produtora do Grupo Curtura a partir de 2005) – era quem fazia a criança, “filho” de Dolores.

Os nomes dos personagens secundários eram amálgamas dos políticos que desfilavam pelos corredores da Brasília daquele ano conturbado. A garota de quem meu personagem gostava na peça era a Faroleta, homenagem óbvia a dona Risoleta, viúva do presidente.

A Flávia Regina, intérprete desta personagem é quem aparece na foto aqui, com o figurino da peça, no único registro que temos desta comédia escrachada e que se tornou o primeiro grande sucesso do Grupo Curtura no meio universitário e para o público da cidade e região. 

A gente tinha dado um passo a mais com a participação na SEUNIT, parceria, aliás, que viria a se repetir muitas vezes.

Uma curiosidade final sobre essa peça: Com a grande repercussão e pedidos para que fosse reapresentada (naquela época encenávamos apenas uma noite), planejamos voltar em cartaz no final do ano. Decidimos que a renda seria toda doada para uma entidade da cidade. Pedimos a uma gráfica que confeccionasse os ingressos e entregamos os talões para o presidente da tal entidade, que iria vendê-los. A peça aconteceria em dezembro. Tudo preparado e voltamos à SAT para divertir mais uma vez o nosso público.

Marcada para as 20 horas, os minutos foram passando e nada de aparecer ninguém. Quem é do palco em algum momento deve ter conhecido essa sensação. A peça foi cancelada. Ficamos sabendo no dia seguinte que o presidente da entidade tinha guardado os talões de ingressos em uma gaveta e os esquecido ali. Foi a única e última vez – graças a Deus e aos deuses do teatro – nesses 40 anos, que um espetáculo meu não teve público.

 

Ficha Técnica de “Viva a República”

Direção e Dramaturgia: Paulo Rogério Rocco.

Elenco: Paulo Rogério, Jaime da Silva, Flávia Regina, Pedro Gaspar, Érica Bassanezi, Claudiléia Penazzo, Donizetti Zampolo, Tatiana Bolognesi Campi, Evelyn Steter e Thais Martinelli. 

Estreia: Julho de 1985 – Sociedade Amigos de Tambaú.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Capítulo 5 – O Espetáculo Não Pode Parar

De volta à escola. Na verdade ainda não tínhamos saído dela. Em 1984 foi meu último ano de colégio. E para comemorar o primeiro aniversário do Grupo Curtura, voltamos ao local onde iniciamos nossa jornada com outro espetáculo sobre o Dia das Mães, à convite da diretoria.

Apresentação no pátio
do colégio.
Com o premonitório título “O Espetáculo Não Pode Parar” lotamos o pátio do Colégio Estadual Padre Donizetti para contar a história de Aline, uma garota cega que sonhava em ser bailarina.

Uma das minhas melhores amigas até hoje, Flávia Regina – brilhante advogada - estreou nos palcos dando vida à protagonista, uma menina doce que sofria os mais variados preconceitos e a descrença de familiares a amigos em sua arte.

Nosso elenco nessa
peça. 
O primeiro da esquerda na foto com o elenco é meu irmão, Carlos Henrique, que ajudou nos bastidores e ao lado dele o Paulo, um seminarista colega do Carlos Saggio, diretor do espetáculo anterior. No centro o João Reginaldo, do qual não tive mais notícia e com a bengala esse que aqui digita. As meninas, da esquerda para a direita: Flávia, Teresa e Célia. 

Gosto muito do texto até hoje e vejo nele elementos dramáticos que iria trazer para minha dramaturgia anos depois. Uma trilha sonora que vinha com algumas lágrimas discretas e pronto: todo mundo emocionado e o Grupo Curtura conquistando de vez o coração dos amigos da escola, dos professores e da plateia em geral, após um ano e cinco montagens em sua ainda breve existência.

O cartaz foi feito à mão - somente um - que foi colocado no mural da escola. O desenho, se não estou enganado, foi feito por uma colega de classe, a Ângela Neves. 

Como disse no capítulo anterior, foi a última vez que nos apresentamos na escola que viu nossa origem. Em 1985 outro passo seria dado. Eu entrava para a faculdade e o Curtura começava uma trajetória um pouco mais séria do ponto de vista artístico.

 

Ficha Técnica de “O Espetáculo Não Pode Parar”

Direção e Dramaturgia: Paulo Rogério Rocco.

Elenco: Paulo Rogério, Flávia Regina Ribeiro da Silva, João Reginaldo, Paulo Seminarista, Regina Célia da Silva e Teresa Cristina Santana.

Estreia: Maio de 1984 – Escola Padre Donizetti Tavares de Lima – Tambaú.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Capítulo 4 – Não Mate o Lírio do Campo

Esse espetáculo foi montado em apenas um mês, com praticamente o mesmo elenco da peça anterior e algumas estreias. Carlos Saggio, hoje Padre Carlos, após o sucesso de “O Jovem de Assis”, propôs a montagem de um texto seu: “Não Mate o Lírio do Campo”.

A história era sobre um jovem ambicioso, no interior do Estado de São Paulo, que destruía a própria família para atingir seus objetivos. E, claro, as consequências disso tudo.

Aguinaldo, Célia e Teresa

O tempo recorde de ensaios não impediu do espetáculo se tornar um sucesso de público e marcar um passo importante para nosso grupo criado dentro de uma escola: pela primeira vez apresentaríamos em um palco fora dali, na sede social de um dos clubes de futebol da cidade.

E assim, em dezembro de 1983, ainda no ano de criação do Grupo Curtura, “Não Mate o Lírio do Campo” era apresentado para um grande público no palco do Esporte Clube Operário. 

No cenário apenas uma mesa, uma cadeira e uma pintura na cortina de fundo. Mas aquilo para a gente era como se fosse o Municipal de uma grande cidade. E um detalhe: foi nosso primeiro espetáculo com registro fotográfico, como pode observar aqui. 

Aguinaldo, Célia e Paulo Rogério

Aqueles atores e atrizes amadores, começando seus primeiros passos em uma área até então desconhecida, viveriam mais uma vez a glória dos aplausos e os cumprimentos emocionados ao final da apresentação.

Carlos Saggio também dirigiu a peça. Em alguns documentos da época diz que fui colaborador no texto, mas acho que isso foi mais uma demonstração da gentileza desse meu amigo do que um fato da minha história como dramaturgo. Ele veio com a ideia e o texto prontos e nosso Grupo Curtura se encarregou dar vida àqueles personagens.

Foi nossa primeira peça a ter um cartaz de divulgação. Impresso em tipografia - sistema de impressão em que as frases eram montadas letra por letra - ele tinha dois patrocínios de duas empresas que não mais existem, mas entendiam perfeitamente a importância de se investir em cultura. 

Essa imagem ao lado traz um desenho feito à lápis em um canto do cartaz. Eu fiz isso somente neste cartaz, que ficou colado para divulgação na Auto Peças da nossa família, pertencente ao meu avô Paulo, que veio a falecer no mês seguinte. 

A próxima montagem iria nos levar de volta ao pátio da escola onde começamos. Pela última vez.

 

Ficha Técnica de “Não Mate o Lírio do Campo”

Direção e Dramaturgia: Carlos Virgílio Saggio.

Elenco: Paulo Rogério Rocco, Aguinaldo Costa, João Reginaldo, Pedro Gaspar, Regina Célia da Silva, Teresa Cristina Santana, Marco Aurélio Salotti e Sônia Vizotto.

Estreia: Dezembro de 1983 – Sede do E. C. Operário - Tambaú. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Capítulo 3 – O Jovem de Assis

Apenas dois meses depois da comédia escrachada que apresentamos – “O Fruto Proibido” – fui procurado por dois estudantes do seminário que funcionava no subsolo do Lar São Vicente, em Tambaú. Eles gostaram da apresentação do grupo e nos convidaram para um trabalho conjunto: a montagem de um texto onde seria contada a vida de Giovanni di Pietro di Bernardone ou São Francisco de Assis.

Jaeme César Lacerda, pelo que me consta autor do texto “O Jovem de Assis” (apesar de que na cópia que tenho – mimeografada – aparecer o nome de Raimundo “Ray” Nonato, que deve ter digitado o roteiro), também dirigiria a peça. Carlos Virgílio Saggio, o outro seminarista, atuaria conosco.

Um adendo: Mimeógrafo era um aparelho utilizado nas escolas para se reproduzir cópias de um texto (quase um xerox). O que seria multiplicado era datilografado, nas máquinas de escrever obviamente, em um estêncil, que era uma folha parecida com carbono. Esse papel especial era colocado no aparelho abastecido com álcool e, conforme girava-se a manivela, as cópias iam saindo, todas com um cheiro peculiar que hoje remete aos tempos de colégio.

Um adendo do adendo: alguns alunos mais espertos invadiam a sala dos professores para pegar, no lixo, as cópias das provas escolares que ficavam gravadas no estêncil descartado e assim pesquisar as respostas.

Mas voltando ao assunto deste capítulo: ao elenco da peça anterior foram agregados novos atores e eu fui escolhido para ser Francisco, o que me trouxe uma alegria imensa, sobretudo ao declamar a indefectível oração final – que penso ser uma das mais belas da história do catolicismo. Também foi o papel onde me despi pela primeira – e acho que única vez – no teatro.

Aliás, a cena onde Francisco joga suas vestes aos pés do pai é uma das que mais tenho nas lembranças de palco até hoje.

A apresentação, a exemplo das anteriores, também aconteceu no palco do Salão Nobre da Escola Padre Donizetti e, como já havia comentado no capítulo anterior, foi muito aplaudida pela imensa maioria católica que formava a cidade naquela época.

A história de São Francisco, o jovem de Assis, é mesmo repleta de poesia, beleza e aquela dose dramática suficiente para arrancar lágrimas. Uma música clássica ao fundo – repare na reprodução do texto que há a marcação de “Jesus, Alegria dos Homens”, de Bach – e pronto: o espectador está entregue à sua apresentação.

Sucesso absoluto – agora sim, já éramos reconhecidos como “aqueles doidos que faziam teatro” – e com um grupo unido e sempre recebendo novos talentos, apenas um mês depois estávamos em outra empreitada, desta vez escrita e dirigida pelo Carlos Saggio – ainda hoje meu grande amigo - que atualmente é padre, cantor, compositor e pároco no distrito de Milagres, no Estado de Minas Gerais. 


Ficha Técnica - “O Jovem de Assis”

Direção: Jaeme Cesar Lacerda.

Elenco: Paulo Rogério, Aguinaldo Costa, Carlos Henrique, Evelyn Steter, Pedro Gaspar, Regina Célia, Teresa Cristina e Carlos Ságio.

Estreia: Novembro de 1983 – Salão Nobre da Escola Padre Donizetti Tavares de Lima – Tambaú.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Capítulo 2 – O Fruto Proibido

O segundo espetáculo do Grupo Curtura de Teatro também não deixou registros audiovisuais, o que é uma pena, já que me recordo claramente dos figurinos escalafobéticos – pra usar uma palavra bem em moda na época – que utilizamos para os personagens dessa comédia maluca que só queria fazer o público rir.

Mas antes de chegar ao assunto do capítulo, propriamente dito, quero citar um grande espetáculo que não fizemos em nossa história. Há alguns anos, o professor Dirceu Barbin – já citado no prólogo – entregou-me uma página que ele guardou por muito tempo, mais precisamente por cerca de 40 anos. Trata-se de um trabalho da aula de Educação Artística onde deveríamos – penso eu – montar uma sinopse, um elenco e uma ficha técnica do que viria a ser uma peça teatral, ensinando-nos ali o processo inicial de uma produção.

A página que reproduzo aqui traz justamente esses detalhes do que poderia ter vindo a ser uma montagem: “Zero Vírgula contra a Ameaça dos Androides”. Obviamente “Blade Runner” havia acabado de estrear nos cinemas e fã que fui, desde o primeiro momento, tratei de colocar logo os tais homens-máquinas em um texto. 

O quadro técnico traz toda nossa equipe, amigas e amigos tão queridos até hoje, meu irmão Carlos Henrique ali no meio e a Teresa Cristina – hoje conceituada Juíza de Direito – que aparece como possível coautora do texto (que nunca viria a ser escrito). A sinopse mistura claramente Sherlock Holmes, James Bond e os temíveis vilões do filme de Ridley Scott.

Para fechar o assunto, o papel datilografado traz a assinatura do mestre Dirceu Barbin, de setembro de 1983, aprovando o nosso trabalho sobre a montagem que jamais chegaria aos palcos, mas que serviu para unir o Grupo na próxima empreitada.

Assim, no mesmo mês deste trabalho teórico, chegaria ao palco do Salão Nobre da Escola Padre Donizetti, em Tambaú, a peça “O Fruto Proibido”, cuja primeira página pode ser vista em reprodução. 

A sinopse dizia que um fruto alterava a personalidade de todas as pessoas de uma família em férias. E o texto nada mais era do que uma sucessão de piadas sobre esse povo passando as férias em uma cabana isolada que tinha a tal planta em um vaso no meio da sala, com instruções claras que não deveria ser comido.

Assim sendo, desde os primórdios da humanidade segundo a Bíblia, o que é proibido é a primeira coisa a atrair o ser humano. Os personagens comiam o fruto e tinham desde a índole alterada bruscamente até o simples “sair do armário” e revelar suas preferências, escancarando a natureza de cada um. 

Nada demais, mas naquele ano que antecedeu os últimos meses da famigerada ditadura militar, claro que recebemos algumas críticas por mostrar uma família em cena que não era tão perfeita de acordo com os preceitos ditados pela matéria “educação moral e cívica”, que fazia parte da grade curricular.     

E claro, também, que não demos a mínima moral para esse povo chato e continuamos a nos divertir em cena, sem imaginar que essas mesmas pessoas que riram muito do nosso “Fruto Proibido” antes de criticá-lo, viriam nos aplaudir efusivamente no próximo espetáculo.


Ficha Técnica - O Fruto Proibido

Texto e Direção: Paulo Rogério Rocco.

Elenco: Paulo Rogério Rocco, Carlos Henrique Rocco, Teresa Cristina Cabral Santana, Regina Célia da Silva, Alexandre Dutra, Adauto Ricardo Sobreira de Lima e João Reginaldo Leme.         

Estreia: Setembro de 1983 – Salão Nobre da Escola Padre Donizetti Tavares de Lima – Tambaú.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Capítulo 1 - É Tão Fácil Ser Feliz

Como descrito no prólogo, a primeira peça do então recém-formado Grupo Curtura de Teatro recebeu o título de "É Tão Fácil Ser Feliz". Estreou em Maio de 1983, no Salão Nobre da Escola Estadual Padre Donizetti Tavares de Lima, em Tambaú - SP. 

Foi meu primeiro texto para teatro, escrito em uma máquina de escrever Groma Kolibri alemã, que pertenceu ao meu avô, também chamado Paulo Rocco. Várias das minhas dramaturgias subsequentes também saíram das teclas marrons da pequena engenhoca que, para mim, era uma das coisas mais maravilhosas já criadas. 

Era o meio que eu tinha para registrar mais rapidamente, minha imaginação nas folhas em branco. E sempre fui muito rápido para datilografar. Meu diploma da Escola de Datilografia Humaitá registra minha prova final com 190 toques ou 38 palavras por minuto. Acho que isso era uma boa média. 

Deixo aqui a foto da histórica máquina que ainda comigo, aposentada a observar meus novos textos, digitados agora em teclados e computadores avançados, com a mesma agilidade daquela prova realizada em junho de 1982. 

Pois bem, da fita com tinta preta que passava de uma bobina para outra surgiu a história de um grupo de jovens que queriam homenagear a mãe de um deles com uma composição inédita. 

Claro que se tratando de uma história que precisava da atenção do público - que pela primeira vez não eram meus colegas de sala de aula, como já disse - eu coloquei algumas coisas mirabolantes, como um bandido que entrava para assaltar e acabava sequestrando a homenageada, dando margem para um pouquinho de melodrama em meio a piadas que hoje me parecem tão ingênuas - mas algumas, surpreendentemente, ainda funcionam dramaticamente, conforme conferi no texto guardado.

Por falar nisso, esse texto - cuja imagem da primeira página é reproduzida ao lado - é a única "prova" de que esse espetáculo existiu. As fotografias eram caras na época e filmar com Super 8, por exemplo, eram algo bem raro. Atente para a indicação da música "Lady Laura", do Roberto, no início que, apesar de óbvia, deve ter funcionado bem para introduzir a história.  

Não há nenhum registro dessa nossa estreia, a não ser num canto carinhoso da memória de cada um que esteve naquele palco. Talentosos amigos que, se não seguiram carreira nas artes cênicas, tornaram-se profissionais exemplares, cada um em sua área de atuação. 


Ficha Técnica - "É Tão Fácil Ser Feliz"

Texto e Direção: Paulo Rocco.

Elenco: Paulo Rogério Rocco, Carlos Henrique Bolognesi Rocco, Teresa Cristina Cabral Santana, Regina Célia da Silva, Alexandre Dutra, Adauto Ricardo Sobreira de Lima e João Reginaldo Leme. 

Estreia: Maio de 1983 – Salão Nobre da Escola Padre Donizetti Tavares de Lima – Tambaú.


sábado, 4 de fevereiro de 2023

Prólogo - A Origem

Em maio de 1983 fui convidado pela Diretoria da Escola Padre Donizetti Tavares de Lima, em Tambaú - interior de São Paulo - a montar um espetáculo para ser apresentado na comemoração do Dia das Mães. Eu estava no segundo colegial e já era apaixonado pelas artes cênicas. 

Das brincadeiras de montar um circo no quintal de casa e chamar os colegas e vizinhos para assistirem às apresentações em troca de um palito de sorvete - sim, o ingresso nem era o picolé completo - talvez tenha nascido essa vontade de produzir sonhos e repartí-los com o público. 

Minha "estreia" foi aos seis anos em uma apresentação de "Os Três Porquinhos", no Jardim da Infância da Escola Antônio Dias Paschoal, também em Tambaú. Eu e mais três ou cinco colegas, com uma espécie de capa feita de papelão e coberta de palha, juntávamos nossas mãos em um círculo para representar a segunda casinha a ser derrubada pelo sopro do Lobo Mau. A professora, Maria Aparecida Rizatti, foi minha primeira diretora de cena e depois - por toda a vida e até nos dias de hoje - uma referência no ofício de ensinar crianças, jovens e adultos; em qualquer área, sempre valorizando a arte. 

Depois desse clássico da literatura infantil até a peça comemorativa citada lá em cima, tenho um hiato de memórias de palco. Talvez um relance de lembrança de uma encenação de algo baseado em "Morte e Vida Severina", também realizada na escola. 

Mas o assunto aqui é o começo do Grupo Curtura de Teatro, grafado assim mesmo, com a grafia "acaipirando" a palavra com o sotaque interiorano. O nome causou polêmica na época, principalmente entre os professores de língua portuguesa, mas minha intenção - aquariano que sou - já era justamente provocar e criticar o pouco espaço que a cultura e o teatro ocupavam na cidade. 

A honrosa exceção era a programação anual da Semana Universitária Tambauense, tradicional evento surgido cerca de 20 anos antes e que mudou a cena cultural, artística e social da região. E que terá um capítulo mais à frente. 

E chegou a data da encenação. Foi o primeiro texto que escrevi para teatro e tinha o otimista - e até utópico título - "É Tão Fácil Ser Feliz". O elenco que será descrito em tópico sobre a peça, eram colegas da escola, de variadas séries, que tinham em comum o gosto pela arte. Ou a simples curiosidade de estar diante do público. Ou ainda uma amizade tão grande pelo diretor do espetáculo que valia "pagar o mico". Mas o importante é que foi um sucesso. 

Sob orientação de outro incentivador desse meu início, o professor de Educação Artística Dirceu Barbin (falecido em 2021), estreamos para os amigos da escola, para os professores, para os pais e outras dezenas de pessoas "estranhas", todas ouvindo meu texto, conhecendo meus personagens e - nunca me esqueço da sensação - aplaudindo muito ao final. Descobri ali aquilo que chamam de "Público". 

É isso. Essa é nossa trajetória até aqui. Não há nenhum pretensão de extrapolar aquilo que o Curtura sempre foi: um Grupo de Teatro nascido no interior do Estado, que deu origem à uma Escola de Teatro gratuita - por onde já passaram mais de 700 alunos - e de onde nasceu uma Associação Cultural, hoje reconhecida como Ponto de Cultura pelo Governo Federal. 

A gente só quer contar essa nossa história, lembrar os espetáculos que realizamos e registrar alguns nomes de atores e atrizes que pisaram essas tábuas mágicas do palco, todos com muito pó de nuvem nos sapatos. 

Bem vindo. 

Paulo Rocco